Philip M. Wagner, o homem que defendeu as uvas híbridas francesas na América

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Philip Wagner
Impressão artística de Philip M. Wagner
Ano de nascimento
1904
País de nascimento
Estados Unidos

O homem de quem ninguém fala

Pergunte a cem entusiastas do vinho os nomes das pessoas que moldaram a viticultura americana e os mesmos nomes surgirão. Robert Mondavi. Andre Tchelistcheff. Talvez Ernest Gallo, se a pessoa se sentir provocadora. Philip M. Wagner quase nunca é mencionado, e isso incomoda-me cada vez mais quanto mais penso nisso.
Wagner não trabalhou em Napa. Não tinha um rótulo famoso, nem um chateau, nem um documentário. Vivia em Baltimore, escrevia editoriais para um jornal e passava os serões a cuidar de videiras híbridas francesas no seu jardim. Durante um longo período do século XX, foi uma das figuras mais consequentes na produção de vinho do leste americano. A maioria dos apreciadores de vinho nunca ouviu falar dele. Isso não é uma anomalia da história. É uma escolha que a história continua a fazer, e é a escolha errada.

O homem do jornal

Philip Marshall Wagner nasceu em New Haven, Connecticut, a 22 de fevereiro de 1904. Família académica, casa cheia de livros. Estudou em Princeton, depois em Michigan, e acabou por seguir o caminho do jornalismo, que lhe assentava bem. Acabou no Baltimore Sun, servindo como redator editorial principal de 1943 a 1964 — um cargo de verdadeira influência num jornal que se levava a sério, numa era em que os jornais regionais ainda o podiam fazer.
O interesse pelo vinho começou durante a Lei Seca, como aconteceu com muitas pessoas: fermentação caseira, uvas da Califórnia, equipamento improvisado. A certa altura, decidiu cultivar as suas próprias videiras. Plantou variedades europeias atrás de casa — Vitis vinifera — e elas morreram. Os verões de Maryland são quentes e húmidos. Os invernos de Maryland são suficientemente frios para matar a madeira tenra. A Vitis vinifera, apesar de toda a sua nobreza, não foi feita para isso. Ele tomou nota da falha, que era o jornalista que havia nele, e continuou a procurar.

Kent, de todos os lugares

A resposta veio de uma direção improvável. Wagner foi destacado para Londres como correspondente quando encontrou o caminho para a estação de investigação agrícola de East Malling, em Kent. Ali encontrou variedades de uvas híbridas franco-americanas pela primeira vez — cruzamentos que criadores franceses como Albert Seibel e outros vinham desenvolvendo desde que a crise da filoxera, no final do século XIX, forçara uma reconsideração fundamental do que uma videira precisava de ser.
A elite francesa nunca gostou dos híbridos. Havia esnobismo envolvido e, em partes da Europa, foram restringidos ou totalmente proibidos para a produção de vinho de qualidade. Eram vistos como um compromisso em vez de uma ambição genuína. Wagner olhou para eles e chegou a uma conclusão diferente. Viu variedades que aguentavam o frio e a humidade, resistiam às doenças fúngicas que tornavam a Vitis vinifera tão cara de cultivar em climas húmidos e, ainda assim, produziam algo que sabia a vinho. Levou estacas de volta para Baltimore.

Riderwood

De volta a casa, Wagner propagou os seus híbridos franceses, manteve notas e escreveu sobre o que descobriu. Quando os leitores escreviam a perguntar onde podiam obter as mesmas videiras, ele enviava estacas. Não havia plano de negócios. Tinha encontrado algo útil e não via razão para ser proprietário exclusivo disso.
Os pedidos continuaram a chegar. O que começara como correspondência informal acabou por se tornar a Boordy Nursery — nome retirado das origens familiares de Jocelyn Wagner — que cresceu e se tornou uma das principais fontes de material vegetal híbrido franco-americano nos Estados Unidos. Produtores de Nova Iorque, Virgínia, Pensilvânia, Ohio e partes do Canadá faziam encomendas a um homem que editava simultaneamente um jornal diário. Ele também viajou para França e obteve estacas de Vidal blanc diretamente do seu criador Jean-Louis Vidal, ajudando a estabelecer o que se tornaria uma das variedades híbridas mais importantes cultivadas na América do Norte. Como conseguiu gerir tudo isto ao lado de um emprego exigente a tempo inteiro é algo que os seus biógrafos, se alguma vez tivesse tido biógrafos a sério, poderiam ter explorado.
Wagner e a sua esposa Jocelyn estabeleceram a Boordy como uma adega licenciada em 1930 — a primeira adega comercial em Maryland após a Lei Seca — e começaram a produzir vinho comercialmente sob o rótulo Boordy em 1945. Era pequena. Nunca iria figurar na lista de propriedades de prestígio de ninguém. Mas não era esse o objetivo. Estava a tentar provar que o leste dos Estados Unidos podia produzir vinho que valesse a pena beber, e fê-lo com consistência suficiente para que as pessoas começassem a prestar atenção.

As uvas

Wagner cultivava o que funcionava e dizia claramente quando algo ficava aquém. Para os brancos, recorria mais frequentemente à Seyval blanc, criada por Bertille Seyve, que aguentava o clima da região do Médio-Atlântico melhor do que quase tudo o resto e dava um vinho limpo e honesto sem exigir intervenção constante. Também trabalhou com Vidal blanc, Villard blanc e Rayon d'Or.
Do lado dos tintos: Baco noir, desenvolvida por François Baco, juntamente com Chelois, Foch e de Chaunac. Mais tarde, a Chambourcin tornou-se significativa em toda a região. Nenhum destes são nomes celebrados. Em certos círculos vinícolas, ainda provocam um ligeiro esgar, um erguer de sobrancelha. Essa reação diz mais sobre os círculos do que sobre as uvas. Wagner compreendia o que as variedades não conseguiam fazer e dizia-o. Também compreendia o que conseguiam fazer, no lugar certo e nas mãos certas, e dizia-o também. É uma posição mais difícil de manter do que o simples entusiasmo, e mais útil.

Os livros

Em 1933 publicou American Wines and How to Make Them. Sem romance, sem enchimento — apenas um manual prático para pessoas que querem fazer vinho em vez de ler sobre como fazer vinho. Em 1945, seguiu-se A Wine-Grower's Guide, que teve várias edições revistas ao longo das décadas seguintes e se tornou a referência padrão para qualquer pessoa que estivesse a estabelecer um vinhedo a leste das Rochosas.
A escrita é simples e específica. Sente-se o quanto de testes, falhas e correções de pensamento foram investidos nela. A secção sobre a seleção do local, por si só, vale mais do que a maior parte do que se escreve hoje sobre viticultura. Também produziu artigos, boletins e um fluxo constante de correspondência que chegou tanto a produtores de vinho amadores como a cultivadores profissionais. A sua influência na cultura da produção de vinho caseira americana foi profunda e em grande parte não registada, o que é apropriado à sua maneira frustrante.

O que ele realmente mudou

Quando Wagner começou este trabalho, a sabedoria convencional era simples: o vinho a sério vinha da Califórnia ou da Europa. O leste era difícil. As variedades nativas americanas sabiam mal e a Vitis vinifera não conseguia sobreviver. Essa visão tinha verdade suficiente para se manter. Foi preciso alguém disposto a ser paciente, metódico e um pouco teimoso para a ultrapassar.
A indústria de Finger Lakes em Nova Iorque, a fase inicial do vinho na Virgínia, pequenas operações espalhadas pelo Médio-Atlântico e pelo Midwest — muitas destas basearam-se no material vegetal e no conhecimento acumulado que passara por Riderwood. Wagner não foi a única pessoa a trabalhar nesta área, mas o seu contributo foi fundamental de formas que ainda não foram totalmente nomeadas. Há algo de irónico no facto de o homem que passou décadas a responder a cartas de estranhos, a enviar estacas, a tentar partilhar o que aprendeu o mais amplamente possível, ser também o homem que nunca chegou a entrar na versão canónica da história.

Depois

Vendeu a Boordy Vineyards à família Deford em 1980. Eles mudaram-na para Hydes, Maryland, onde ainda opera. Wagner continuou a escrever e a corresponder-se e manteve-se envolvido em organizações ligadas ao vinho, incluindo a American Wine Society. Morreu em casa, em Riderwood, a 29 de dezembro de 1996. Tinha 92 anos.
Os obituários foram respeitosos e precisos e, tendo em conta o que ele realmente fizera, um pouco aquém do esperado. Isso não é invulgar para pessoas cujo trabalho foi difuso e cumulativo e se expressou principalmente através de correspondência, estacas e um bom livro prático. A história gosta de um único momento decisivo. A carreira de Wagner, na maior parte, não foi isso.
A Boordy Vineyards ainda lá está. A Seyval blanc ainda é cultivada em todo o leste dos Estados Unidos. Os seus livros ainda aparecem em segunda mão. Algures, existe quase certamente um pequeno vinhedo em Maryland, na Virgínia ou no norte do estado de Nova Iorque que começou porque alguém localizou uma videira de Riderwood e aprendeu o resto através das suas páginas. Ele provavelmente respondeu à carta dessa pessoa pessoalmente.